Angústias de uma Crise da Comunicação

TechnologicComo pós-moderno confesso, muitas dúvidas sobre as reconfigurações globais no ambiente pós-mídias digitais têm me angustiado muito. Não no sentido negativo. É uma angústia boa. Durante toda a graduação se falou muito da revolução das mídias digitais, da abertura democrática que elas trouxeram ao mundo, do fim da via de mão única entre a o interlocutor (enquanto mídia) e o receptor, da abertura ao diálogo, ao afeto, ao amor (sob o discurso do consumo, inclusive). Mas, reiterando minha ansiedade pós-moderna, cada vez mais me angustio com a falta de prática disso. Sob a mesma ótica, já não adianta mais discutirmos a revolução das mídias: ainda que esteja no processo, o mais revolucionário já aconteceu. O que fazer com isso?

 

PC Siqueira e Felipe NetoA publicidade já abraçou o discurso do amor, mas não faz nada do que propõe. As campanhas cada vez mais demandam engajamento do público - o Itaú e O SONHO BRASILEIRO, Lady Gaga e os Little Monsters, as multidões dos flashmobs, as produções colaborativas - o amor sob a ótica do consumo, marcas que unem pessoas e desejos. Não só as marcas, mas os amadores que fazem sucesso na Internet. Cito Felipe Neto e PC Siqueira, que, por caminhos diferentes, lutam por um tipo de inclusão ou dão voz a adolescentes revoltados com as pequenas coisas da vida. O amador vira mídia e atrai as grandes empresas afoitas por consumidores contra um inimigo comum, ou seja, um nicho engajado.

TV AeroportoAs agências de publicidade se desdobraram em agências de mídia online, agências de conteúdo, agências de sabe-se lá mais o quê, e estão todas perdidas. Os profissionais da comunicação desaprenderam a comunicar. Hoje mesmo eu contei o número de telas que eu conseguia ver na sala de embarque do aeroporto de Congonhas: 18, sendo que uma delas era formada por 14. Em todas elas, anúncios e notícias. Na minha avaliação, são publicidades mal localizadas, mídias subutilizadas, excesso de informação e de desperdício, inclusive de eletrecidade.

Não sei dizer, mas parece que a pós-moderna busca pela eficácia está cada vez mais difícil. Será o contrário? Acredito que não. A publicidade não sabe para onde correr. As marcas reclamam publicamente da falta de preparo dos profissionais da comunicação em lidar com a velocidade das mudanças do consumidor atual. E olha que eu nem sou publicitário. A situação dos radialistas é ainda mais sufocante. Todos têm acesso aos meios de produção, mas quem sabe produzir?

A ascenção de amadores no campo do audiovisual depende do olhar ‘carinhoso’ e ‘amoroso’ da publicidade e aparece com o mote do ’todo mundo pode fazer’. A questão é que hoje a possibilidade já não é novidade. Poder fazer seu vídeo em casa era novo para a minha geração. E agora? Virar para um jovem de 15 anos e dizer que ele pode fazer um vídeo é bastante redundante. E se um destes engaja um público, faz sucesso por aí, os profissionais tremem, também não sabem para onde vão. Produtoras vão fazer o quê? Televisão aberta? Fechada? DVD e BlueRay? Internet? Celular? Aplicativos? Elas acompanharam estas mudanças?

Produção AmadoraDevo deixar claro que não sou contra a ascenção do amador. A presença dele estreita a zona de conforto, balança a corda-bamba. Isso é ótimo. Acho fabuloso que quem desponte no meio da comunicação seja pessoas que nada estudaram de comunicação. Assim, notamos como não sabemos comunicar, como estamos (ou estávamos) alheios a novos formatos, novas formas de expressão, ou apenas já ultrapassados, atropelados pelos próprios discursos, pela falta de fundamentos. E é interessante pensar que nesse contexto conturbado de amor e consumo na pós-modernidade emerja este sujeito amador – que ama o que faz e, portanto, apenas faz.

Como bom pós-moderno, são impressões empíricas, embasadas apenas na minha jovem experiência. Não sei se nossa próxima conversa vai tanger algo parecido, mas seguem as angústias ao menos para serem compartilhadas. Desculpas pela bagunça de pensamentos, mas é apenas um texto informal escrito à meia-noite de um sábado de viagens e cansaço, mas inspirado.


  1. Leonardo Cazes diz:

    Como sempre, amigo, concordo e discordo de você em vários pontos. Para começar, não sou pós-moderno convicto. Mas vamos aos argumentos:

    1) Os meios/mídias (publicidade, jornal, rádio, TV, etc) estão perdidos? Bom, não sei se perdidos, mas em crise com certeza. Depois de décadas com a fórmula na mão, agora a fórmula não existe. Quer dizer, existem várias, mas será que se aplicam ao modelo de produção atual? Meu palpite é que não. Acredito que o momento atual implica em mudanças estruturais, de modos de produção a modos de financiamento e consumo. Na música, isso já aconteceu. No cinema, está acontecendo. Sou contra reproduzir velhas práticas em novas mídias. Viver a transformação é um momento único, essa é a nossa oportunidade. O melhor é ver os novos modelos surgirem e ver o que vai sobreviver. Estaríamos entrando na era das startups da comunicação? Em uma analogia, quem vai criar o novo Facebook midiático? Taí uma angústia boa, daquela dá vontade de curtir.

    2) A ascenção do amador. Olha, acho muito bacana haver espaço para uma produção não-formal, amadora, construída na base do instinto, do quero-falar-merda-e-as-pessoas-vão-rir. Só que, na minha visão, isso só existe/existiu no início do processo. Hoje, vejo a ascenção da estética do amador. A publicidade quer ser amadora, os vloggers parece que seguem cartilha. E quando vão para a TV, me parecem que perdem o vigor da internet. Na seleção natural do consumo, só os mais talentosos vão sobreviver? Ou quem rezar melhor na cartilha do amador?

    3) De repente, a publicidade quer vender valores, afeto, amor. Aí contradição do sistema aparece: o plano de saúde diz que o melhor é viver. Agora, tenha um problema e vai ver como ele te ajuda a viver. O banco diz que constrói o futuro junto com você. Será? Isso não seria emulação do amor, do afeto? Fantasia pura e simples? Anestésico para não enfrentar a verdade de que “não existe amor em SP”?

    Enfim, são apenas anotações. Espero que o papo continue bom por aqui. Estava sentindo falta de um “corredor” virtual para bater um papo no intervalo entre as “aulas”.

    Um abraço,

    Leo

  2. Vitor Alli diz:

    Leo, não vi discordâncias, só outras questões, pertinentes e relevantes, adicionadas à discussão.

    Voltemos por partes:

    1) É exatamente esta a questão. Modelos ruindo, novas maneiras de lidar com o produto, com a mídia, com o público. E, sim, estamos, aos poucos, entrando na era das startups de comunicação. Já entramos, de certa maneira – a maioria dos novos empresários das chamadas strartups de tecnologia saíram de cursos de comunicação. Mas aí chegamos a um ponto de pequena discórdia. Não acho que temos de ver os modelos de negócio surgirem e esperar qual que vai sobreviver. Acredito, como dito neste post do blog: http://www.vitoralli.com.br/blog/blog/2012/01/07/o-que-se-faz-com-as-angustias/ , que não podemos deixar isto nas mãos das grandes empresas. Enquanto profissionais, somos responsáveis por isto. Precisamos, nós mesmos, empreender, buscar novos modelos de negócio e, mais do que isso, deixar claro, dentro do contexto, quais as demandas dos profissionais de comunicação. Em breve falarei mais sobre isso no blog. Acredito que hoje e durante algum tempo estamos fadados à auto-produção, ao produzir-se.

    2) Acho que só precisamos falar a mesma língua. Quando falo de amador, falo de pessoas que não são profissionais e que se aventuram em novos caminhos. No caso, precisamos avaliar que os que foram para a TV passaram a ser dirigidos, comandados por profissionais da comunicação – os que, acredito, já não têm a certeza de que sabem comunicar. O fato aqui é que não estou preso a indivíduos amadores, mas à ascenção do amador como um todo. A questão não é quem sobrevive, mas quem consegue comunicar. Não me interessa saber se o Felipe Neto obterá sucesso em outro programa, outra mídia, interessa saber que todo dia surgem vídeos novos, amadores, que fazem mais sucesso que muita publicidade, muitos curtas-metragens, muitos longas nacionais. O interessante na discussão do amador, para mim, é justamente o que tentei apontar: eles nos mostram que os esforços dos profissionais, especialmente na Internet, têm sido menos eficazes que o de jovens amadores que criam coisas de graça por aí. É claro que isso tem um impacto na estrutura da profissão, mas é uma conseqüência da transição. O que eu gosto de ver nisso tudo é que a zona de conforto do profissional está cada vez mais reduzida – o que é ótimo para o despontamento de novos produtos, novos modelos, novas estéticas. Pense comigo: o amador não teria tanto espaço se o profissional não fosse comparável a ele.

    3) Definitivamente. Eis a angústia: que amor é esse? Como demandar amor dentro deste contexto absurdo? É como colocar uma faca no pescoço e dizer “você vai me amar sim ou não?”. O amor e a arte são o caminho para as soluções. E as duas coisas só são possíveis pela edução. Não nos resta esperar, mas agir.

    Grande abraço e um carinhoso obrigado pelo aquecimento da discussão.

    Vitor

  3. Otimo artigo! estou impressionada! viva a saude!

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